Design industrial, arquitetura e interiores: por que ainda disputamos quem sabe mais?
Entre o móvel, o ambiente e a construção, existem diferenças de formação — e muitas oportunidades de aprender uns com os outros.
Minha primeira formação foi em Design Industrial. Depois, fui trabalhar diretamente com a indústria de móveis, uma área em que desenho, fabricação, arquitetura e interiores se encontram todos os dias.
Nesse caminho, acompanhei por muitos anos uma disputa que talvez você também conheça: designers e arquitetos defendendo seus espaços, seus conhecimentos e, às vezes, o próprio status profissional.
Quem entende mais de mobiliário? Quem sabe dimensionar melhor uma cozinha? Quem está mais preparado para projetar um ambiente?
Depois de também me formar em Arquitetura e Urbanismo, passei a olhar para essas perguntas a partir das duas formações. Existem diferenças importantes de repertório, mas o diploma, sozinho, não resolve um projeto.
Onde essas profissões se encontram
Imagine uma cozinha.
Ela precisa se relacionar com instalações, iluminação, ventilação e circulação. Ao mesmo tempo, seus móveis precisam ser fabricados, transportados, montados e utilizados.
Uma porta precisa abrir. Uma gaveta precisa passar pelo puxador do módulo vizinho. O eletrodoméstico precisa caber com as folgas previstas pelo fabricante. A pessoa precisa alcançar o que guarda e trabalhar com conforto.
É nesse encontro que as fronteiras entre as profissões ficam menos evidentes para quem vai utilizar o espaço. O morador recebe uma cozinha inteira. Se alguma dessas relações falha, ele sente o problema no cotidiano.
Em termos de abordagem, o design industrial se aproxima do produto: como funciona, como é fabricado, quais materiais utiliza e como as pessoas interagem com ele. No mobiliário, isso aparece nos encaixes, nas ferragens, na resistência, na montagem e na manutenção.
A arquitetura amplia a leitura para a edificação e sua relação com o lugar. O ambiente participa de um conjunto de decisões sobre organização espacial, sistemas construtivos e desempenho.
O design de interiores concentra sua atenção na experiência dentro dos ambientes: organização, circulação, mobiliário, materiais, iluminação e necessidades de quem ocupa o espaço.
Esses enfoques se cruzam e variam conforme a formação e a trajetória profissional. Um arquiteto pode se especializar profundamente em mobiliário. Um designer industrial pode construir um repertório consistente em ambientes. Um designer de interiores pode desenvolver grande domínio de detalhamento e execução.
A experiência de cada um muda bastante essa conversa.
Em ergonomia e medidas, o designer pode ter vantagem?
Em determinadas situações, sim.
Um designer industrial que trabalha diariamente com desenvolvimento de móveis pode ter mais domínio de ergonomia aplicada ao produto, ferragens e fabricação do que um arquiteto cuja prática está concentrada em outras escalas.
Na minha experiência com a indústria moveleira, esse conhecimento faz diferença. O desenho precisa enfrentar as condições reais de produção e uso. Uma solução bonita pode exigir ajustes quando encontramos uma limitação de material, uma interferência na montagem ou uma dificuldade de acesso.
Mas transformar essa experiência em “todo designer entende mais de ergonomia que todo arquiteto” seria uma generalização.
A International Ergonomics Association define a ergonomia a partir das interações entre as pessoas e os demais elementos de um sistema, buscando melhorar o bem-estar e o desempenho. Isso envolve aspectos físicos, cognitivos e organizacionais. Portanto, ergonomia vai muito além de decorar uma tabela de medidas.
Na prática, precisamos perguntar: quem vai utilizar esse móvel? Para fazer o quê? Durante quanto tempo? Com quais capacidades e limitações?
Uma dimensão habitual pode servir como ponto de partida. Sua adequação depende das pessoas, das tarefas e das condições do projeto.
Entre o desenho e a fabricação, existe o material
Na indústria de móveis, aprendi que conhecer um material envolve muito mais do que escolher sua cor ou textura. É preciso entender suas dimensões comerciais, espessuras, limitações, possibilidades de acabamento e a forma como será trabalhado.
Uma chapa tem comprimento e largura definidos. O sentido do padrão ou do veio interfere no corte. Uma ferragem exige espaço, furações e condições específicas de instalação. Essas características precisam participar do projeto desde o início.
Ao longo dos anos, vi projetos de arquitetos que não consideravam essas questões: painéis desenhados como superfícies contínuas, maiores que as chapas disponíveis, sem previsão de emendas; portas e gavetas sem espaço suficiente para o funcionamento das ferragens; soluções que precisavam ser revistas durante a fabricação.
Uma emenda prevista pode fazer parte da composição. Quando ela só é descoberta na produção, as opções ficam mais limitadas, e o resultado pode se afastar do que foi apresentado ao cliente.
São situações em que um designer industrial com experiência em mobiliário pode ter mais domínio técnico. A proximidade com materiais, processos produtivos e montagem ajuda a antecipar dificuldades que nem sempre ficam evidentes na planta ou na imagem renderizada.
Essa é uma percepção da minha experiência profissional, e não uma regra sobre todos os arquitetos. Existem arquitetos com excelente conhecimento de marcenaria, assim como designers que precisam aprofundar sua experiência de produção. O problema surge quando uma decisão é tomada sem conhecer as condições necessárias para executá-la.
O eletrodoméstico precisa entrar, funcionar e sair
Outro exemplo recorrente está na integração dos eletrodomésticos à marcenaria.
Já vi projetos que consideravam o espaço ocupado pelo equipamento, mas não sua abertura. A geladeira cabia no nicho, porém a porta encontrava uma parede ou um painel antes de abrir o suficiente para permitir a retirada das gavetas internas. Em outras situações, portas de fornos ou lava-louças interferiam em puxadores, rodapés ou móveis próximos.
Caber no desenho é apenas uma parte da solução.
Precisamos conferir as dimensões e as condições de instalação do modelo escolhido, incluindo folgas, ventilação, conexões e movimentos de abertura previstos pelo fabricante.
Também existe uma pergunta que costuma aparecer tarde demais: como esse equipamento será retirado?
Já encontrei situações em que o eletrodoméstico entrava durante a montagem, mas ficava preso depois da instalação da bancada, dos arremates ou dos móveis ao redor. Uma manutenção que deveria ser simples passava a exigir desmontagens que poderiam ter sido previstas.
Projetar também é pensar na sequência de montagem, no acesso às conexões e na possibilidade de manutenção e substituição. Quando necessário, isso pode exigir um arremate removível, um acesso técnico ou outra solução compatível com o equipamento.
Na minha visão, essa atenção ao que acontece depois da entrega é uma das grandes contribuições da experiência industrial para os projetos de interiores. O ambiente continua sendo usado, limpo, ajustado e consertado por muitos anos. O projeto precisa acompanhar essa vida.
O detalhe também é projeto
Quem trabalha com móveis aprende a olhar para questões que podem passar despercebidas em uma apresentação.
Como trocar uma ferragem depois? Como acessar um registro? Como montar uma peça em um ambiente apertado? O que acontece quando a parede apresenta uma diferença de medida?
São decisões discretas, mas que ajudam a determinar a qualidade da entrega. Um detalhamento bem resolvido pode evitar improvisos, desperdícios e discussões durante a execução.
Por outro lado, dominar o móvel não significa compreender automaticamente todas as relações da edificação. É preciso enxergar o que acontece ao redor dele, reconhecer interferências e saber quando outro conhecimento precisa entrar na conversa.
Para mim, maturidade profissional aparece muito nessa capacidade: aprofundar o que se conhece e reconhecer os limites do próprio repertório.
Quando o status ocupa o lugar da discussão técnica
Ao longo da minha trajetória, percebi que alguns conflitos deixam de tratar da solução e passam a tratar de quem tem mais autoridade para falar.
O título ganha mais peso que o argumento. Uma observação de quem fabrica ou monta pode receber menos atenção do que merece. Em sentido contrário, uma exigência do projeto pode ser descartada antes de alguém compreender sua razão.
Minha crítica é a essa postura.
Se existe uma incompatibilidade, precisamos conseguir demonstrá-la. Se uma solução oferece mais conforto, precisamos explicar para quem e em quais condições. Se uma escolha encarece a execução, precisamos entender seu benefício.
A pesquisa sobre expertise em projeto ajuda a aprofundar essa discussão. Em uma revisão publicada na revista Design Studies, Nigel Cross reuniu estudos sobre diferenças entre iniciantes e especialistas, comportamento de projetistas experientes e profissionais de destaque. O trabalho investiga como essa competência se manifesta na atividade de projetar; ele não estabelece uma hierarquia entre designers e arquitetos.
Minha leitura é que deveríamos prestar mais atenção à forma como cada profissional investiga e resolve o problema antes de presumir sua competência apenas pelo título.
Na prática, uma observação tecnicamente fundamentada merece ser ouvida, seja ela feita pelo arquiteto, pelo designer, pelo marceneiro ou pelo montador.
Um projeto começa antes do desenho
Antes de escolher o acabamento de uma cozinha, vale descobrir como aquela família cozinha. Antes de desenhar uma estação de trabalho, precisamos entender as tarefas realizadas ali.
O modelo Double Diamond, do Design Council, organiza o processo em descobrir, definir, desenvolver e entregar. A proposta inclui compreender o problema com as pessoas envolvidas, explorar alternativas e testar soluções. É uma referência de método, e não um estudo comparando profissões.
Essa abordagem faz sentido para mim porque leva a conversa para perguntas úteis: o que estamos tentando resolver? O que ainda precisamos conhecer? Como vamos verificar se a proposta funciona?
São perguntas que cabem tanto na criação de uma cadeira quanto no desenvolvimento de um ambiente.
Trazer fabricantes e executores para a conversa, no momento adequado, também pode revelar limitações e possibilidades enquanto ainda existe espaço para ajustar o projeto.
O que levo das minhas duas formações
O Design Industrial e a experiência na indústria de móveis me ensinaram a prestar atenção no produto, na fabricação e no detalhe.
A Arquitetura ampliou minha leitura do espaço e das relações entre essas decisões.
Hoje, vejo valor nessa combinação. Ao olhar para um ambiente, também penso em como seus componentes serão produzidos, montados, utilizados e mantidos.
Continuo acreditando que, em determinados assuntos, um designer pode estar mais preparado do que um arquiteto — assim como o contrário também acontece. A questão é identificar qual conhecimento o projeto exige e quem consegue contribuir com ele.
A qualidade aparece quando conseguimos conversar sobre essas diferenças sem transformar cada uma delas em uma disputa de prestígio. Afinal, quem contrata espera um espaço que funcione tão bem na rotina quanto na apresentação.
No seu projeto, quem está conectando o detalhe do móvel ao funcionamento do espaço inteiro?
Referências para aprofundar
Cross, Nigel (2004). Expertise in design: an overview. Design Studies, 25(5), 427–441. DOI: 10.1016/j.destud.2004.06.002. Revisão de pesquisas sobre expertise na atividade de projetar.
International Ergonomics Association. What Is Ergonomics (HFE)? Referência conceitual sobre ergonomia e seus campos de aplicação.
Design Council. Framework for Innovation — Double Diamond. Referência metodológica para investigação de problemas, desenvolvimento e teste de soluções.
Os exemplos sobre marcenaria, materiais e eletrodomésticos apresentados neste texto são relatos da minha experiência profissional. As referências ajudam a contextualizar a discussão sobre ergonomia, conhecimento e processo de projeto.


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